sábado, 24 de junho de 2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

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quinta-feira, 8 de junho de 2017

ENTREVISTA COM O CARTUNISTA LUSCAR



Ele foi e ainda é um dos cartunistas mais politizados e produtivos Deste país. Seu nome aparecia em uma pancada de publicações, principalmente, destinadas a nos fazer rir. Eu era garoto quando curtia seus cartuns. Teve como seus contemporâneos gente da pesada na área dos cartuns, como: Henfil, Jaguar, Zezo, 
Ziraldo e outras feras do traço e do bom humor. Hoje, em nossa roda viva, mais um veterano vai nos contar suas experiências e frustrações que teve ao longo dos anos no setor editorial deste país. A seguir, vamos se deliciar ouvindo as boas histórias do...   

GRANDE CARTUNISTA LUSCAR!

 

Tony 1: Bem-vindo, grande guru do humor... e, grato por concordar em dar o depoimento que, sem dúvida, é de suma Importância, principalmente, para a nova geração... 

LUSCAR: Tamos aqui. 

Tony 2: Vamos nessa... vou começar uma saraivada de perguntas, não vale enrolar, hein? 

LUSCAR: Falou, bicho. 

Tony 3: Eu, quando era garoto adorava gibis, gastava boa parte da grana que meu pai me dava comprando “aquelas porcarias”, como dizia meu velho. Você também era fissurado em revistas de quadrinhos na infância e adolescência? O que você curtia?   

LUSCAR: Curtia de tudo, começando pela revista O Cruzeiro com Carlos Estevão, Ape, Millôr (que se assinava Vão Gôgo) e, claro, Péricles. Tinha também o Borjalo que publicava n’A Cigarra. 
Devorava os chamados gibis e também álbuns de Alex Raymond e Hal Foster, presenteados por um tio que morava no Brás. Gostava muito dos Sobrinhos do Capitão, Pafúncio e Marocas, Garotas e Piadas, O Anjo do Colin, Disney, Cavaleiro Negro, Ferdinando, Popeye, por aí... Meu pai não via com bons olhos pois considerava as peças de baixo nível literário e artístico. Quanto a minha mãe, tudo bem, desde que a profissão almejada fosse bem executada e honesta.   





















Tony 4: O primeiro cartunista que me chamou a atenção foi Péricles, com seu genial Amigo da Onça... até hoje adoro o traço e o senso de humor dele. Você também o admirava? 

LUSCAR: Sem sombra de dúvida, O Amigo da Onça foi o personagem mais popular já criado até hoje no universo comix brasileiro.   

Tony 5: Despois, descobrir as revistas do Henfil. Eu adorava os Fradins. Aquilo era publicação própria ou ele trabalhava pra alguma editora? 

LUSCAR: Ele começou publicando na revista Alterosa, de Belo Horizonte, depois no Pasquim e, em seguida, passou a ter sua própria revista pela Codecri (Comitê de Defesa do Crioléu), a editora do Pasquim. Foi um marco no HQB. 




  






Tony 6: Comitê de Defesa do Crioléu? Rssss. Esta eu não
sabia... genial! Nossos cartunistas são geniais. Outro que eu me amarrava era o Novaes, na Folha da Tarde ou Jornal da Tarde, se não me engano... você conheceu o Novaes? 

LUSCAR: Ah, o Novaes, filho do grande Otávio. Ele começou na FT com uma tira diária: Sir Ney, numa referência ao então presidente Sarney na segunda metade dos anos 80. Depois ele foi trabalhar como ilustrador no JT. Daí foi para a Gazeta Mercantil. Vivia reclamando da ansiedade dos editores que não lhe davam tempo de caprichar no desenho. Atualmente eu não sei, mas acho que ele está se dedicando a pintura. 






Tony 7: Como e quando você conseguiu publicar seu primeiro Cartum? Foi moleza ou teve que peregrinar pelas editoras até achar uma
brecha? 

LUSCAR: Publiquei meu primeiro cartum em 68, eu acho, na revista Cláudia, então editada pelo Inácio de Loyola Brandão. O detalhe interessante é que, meio hippie, eu não tinha RG e o Loyola teve de ir comigo ao banco e assinar o papagaio pra eu receber. Depois veio a seção O Centavo da revista O Cruzeiro, Almanaque da Biotônico Fontoura, jornais Última Hora, A Gazeta, JT e revistas Melodias, 
Intervalo, Senhor, por aí... 












Tony 8: Quando comecei a trabalhar com as editoras, com desenhos, meu pai vivia dizendo: Filho essa merda não dá dinheiro. Vai arrumar um emprego. Tive vários, na esperança de alegrar o velho. Mas, o que eu sempre desejei fazer na vida era desenhar HQs e ter uma banda de rock. Rsss. Meu pai dizia: Cara, você só gosta de coisas que não dão futuro. Os anos se passaram e não posso reclamar da profissão que escolhi. Faço aquilo que gosto. Você, quando começou, também era criticado em casa? 

 LUSCAR: Sim, tive problemas dessa ordem. Meu velho, como já disse, considerava o universo comix como arte e literatura menores. Quando a barra pesou, tive de fugir de casa. Fiquei hospedado uma breve temporada na casa do Sergio Lima, ajudando o cara a fazer a Múmia. O Gedeone escrevia, o Sergio fazia o lápis, sua mãe as letras e eu a arte-final. Depois eu me escondi em Mogi das Cruzes.    


Sergio Lima também desenhou Juvêncio

Tony 8: Você também fez A Múmia, com Sergio Lima e o prof. Gedeone... jamais poderia imaginar... Lembro bem dos seus cartuns na revista Garotas e Piadas.  Como e quando surgiu a chance de publicar pela EdreL? 

LUSCAR: Passei por lá, vi a porta aberta e entrei. O mesmo se deu com a editora do Miguel Penteado e a Taíka e posteriormente com todas as outras editoras. Eu era peitudo ou, se preferir, cara-de-pau mesmo.  




Tony 9: Autor de HQs e cartuns que for tímido, tá lascado,
não vende seus trabalhos... Nos anos 60, 70 e 80 haviam muitas publicações de humor e você estava em quase todas. Pelo visto não faltava trabalho na época. Deu para ganhar um bom dinheiro, naquele período?  

LUSCAR: Essa profissão nunca deu dinheiro. Por isso eu sempre relutei em atuar como professor. A única exceção, por motivos culturais e pelo salário razoável, foi o Centro Cultural de São Paulo, onde administrei aulas de desenho de humor. O que dá grana é a publicidade. Em 60 eu não cheguei a publicar muito. A coisa se deu mais nos anos seguintes: 70, 80, 90 e início do século 21.v Minha última aparição na mídia foi no Jornal do Brasil, que fechou as portas em 2008.

Tiras do autor publicadas no Jornal do Brasil





Tony 10: Dá pra citar algumas editoras e jornais que você trabalhou ou colaborou? 

LUSCAR: A lista é muito grande e posso esquecer alguma coisa. Acho que passei por toda a imprensa, tanto a oficial como a underground, que nós chamávamos de imprensa nanica. 

Tony 11: Ziraldo, ao meu ver, era pra ser o primeiro Maurício de Sousa do país. Os gibis do Pererê, em cores, da editora O Cruzeiro, era dado como brinde numa rede de lojas chamada Eletroradiobrás. 
Mas, de repente, a Turma do Pererê deixou de circular durante anos. Só voltou muito tempo depois, pela Abril, por um breve período e muito depois pela Rio Gráfica, se não estou errado. Entretanto, o Ziraldão sempre se deu bem com os livros: A Super Mãe, O Menino Maluquinho – que acabou virando filme, peça de teatro e desenho animado. Na sua opinião, por que ele não se deu bem com os quadrinhos? 

LUSCAR: O Pererê, uma das melhores coisas que Ziraldo fez na vida, não suportou a concorrência com a Marge via Bolinha e Luluzinha. Nos anos 70 ele voltou à carga através da Abril, mas já não tinha a mesma pureza, eu acho. E o Menino Maluquinho é algo muito especial. Arrisco dizer que é sua obra-prima. No mais, a obra do Ziraldo é muito vasta, incluindo até uma peça de teatro “Essa banheira é pequena demais para nós dois”. 














Tony 12: Por falar no genial Ziraldo... em plena ditadura militar ele e um bando de “malucos” – no bom sentido – lançaram o tablóide mais importante do país, chamado O Pasquim. O jornaleco era o porta-voz da juventude oprimida da época. Você colaborou com O Pasquim... como conseguiu este feito? Já conhecia o Ziraldo ou alguém da turma? 

LUSCAR: Depois de sair da prisão, marcado como comunista e elemento de alta periculosidade, todas as portas se me fecharam, menos o Pasquim. A porteira no jornal para os novos foi aberta pelo Henfil, por volta de 73, 74, por aí. E se deu por necessidade editorial, pois os medalhões estavam na mira da censura. Eu e meus colegas da mesma geração fazíamos parte do chamado “O Novo Humor do Pasquim”.   






Tony 13: Publicar no pasquim era sinônimo de comunista, segundo os militares da época. Você sofreu algum tipo de repressão das autoridades? 

LUSCAR: Levei uns petelecos em 70. Comunista era apenas um rótulo dado pela ditadura militar. Na verdade nós éramos todos existencialistas. 



Tony 14: Artistas, em geral, eram perseguidos, presos e torturados por aqueles que comandavam o austero regime. Falou mal do governo, já era. Este era o lema. Os mais privilegiados, filhos da classe média alta, eram deportados do país. Outros eram presos, torturados e até morriam. Você como um autêntico outsider, com plena consciência política não temia ser torturado um dia? Teve amigos que desapareceram na época?

LUSCAR: Alguns desaparecidos de uma turminha braba que tinha um aparelho em Mogi das Cruzes, SP. Anos depois, quando fui pego na redação de A Gazeta, levei uns beliscões com já disse e, para ser solto, tive de chorar, justificando o meu “deslize” pela perda de uma namorada.   

Tony 15: Você foi ao Rio conhecer a turma do Pasquim. Como era a redação do jornal, na época? Tinham boa infraestrutura? Ou estavam na pindaíba? 

LUSCAR: Quem botou organização na orgia foi o Millôr, que lhe custou uma eterna briga com o Tarso de Castro, fundador do jornal. Quanto ao Ziraldo eu já o conhecia desde 70 quando ele era editor, junto com Ruy Castro, da revista Fairplay, creio que a primeira revista masculina brasileira. Como o Pasquim, no início, quando ainda não estava sobe censura não dava muita trela para os novos cartunistas por falta de espaço, minha entrada no mercado carioca se deu através dessa revista. 


Millôr Fernandes





Tony 15: Eu não me lembro bem  alguns nomes dos caras da turma do Pasquim, além do Ziraldo e do Jaguar. Tinha o Paulo Francis e quem mais? 

LUSCAR: Muita gente. Não vou citar nomes pra não correr o risco de esquecer alguém. Eu me relacionava bem com todo mundo, em diferentes níveis de intimidade. Mas não posso deixar de mencionar um cara muito especial: Fortuna. 




Tony 15: Era uma turma da pesada. Durante quanto tempo você colaborou com eles? 

LUSCAR: Eu mandava algumas coisas via correio no início dos anos 70 e também fazia um bate e volta na Dutra com frequência. Em 74, depois da mudança pro Rio, passei a colaborar diretamente e fiquei até o apagar das luzes em 91, com várias saídas e voltas. Era um amor meio raivoso por conflito de gerações. Eu era meio prafrentex, queria botar fogo na canjica, rock and roll, assim no estilo Rolling Stone e Village Voice e os donos, no meu entender, eram meio caretas. Muito brilhantes, sem dúvida, mas da esquerda conservadora. 


Jules Feiffer - Cartunista do The Village Voice
e ex-dicípulo de Will Eisner




Tony 16: Pagavam direitinho ou davam uma canseirinha? 
LUSCAR: Pagavam pouco, mas pagavam. 

Tony 17:  Você chegou a conviver com eles, ou se comunicar com eles,  quando foram em cana, por terem lançado o compacto (disco pequeno de vinil) Je T’aime, que continha uma música francesa – escandalosa para aquela época puritana e cheia de falso moralismo, em que um homem e uma mulher cantavam gemendo simulando uma trepada? Rssss... 

LUSCAR: O pessoal foi em cana pelo conjunto da obra, não por essa musiquinha mela-cueca que, por sinal, foi lançada em meados dos anos 60, bem antes da aparição do jornal. O primeiro disco de bolso da editora foi o lançamento, em primeira mão, de Águas de Março de Tom Jobim do lado A. Do lado B tinha um estreante João Bosco com Agnus Dei. Isso foi em 72. Falando ainda sobre o meu relacionamento com a patota, isso se deu anos depois de eles serem presos. O meu mais chegado foi o Fortuna, quando o ajudei a editar O BICHO, uma revista de Cartuns e Quadrinhos não Enlatados; uma experiência muito rica e fascinante. 



Fortuna



Tony 18: Entendi. Agora tudo ficou claro, grande guru... O Bicho, de fato, foi uma revista revolucionária, pra época... Mesmo com os caras na prisão o jornal continuou. E, já que estavam vendo o sol nascer quadrado, passaram a descer o pau ainda mais no governo. Você tem ideia de quanto chegou a vender O Pasquim? 

LUSCAR: Em sua prisca o tabloide chegou a vender mais de 200 mil; um recorde de venda. Proporcionalmente mais que O Cruzeiro. Depois da prisão, o jornal passou a ter censura prévia, o que ocasionou uma queda na venda.   





Tony 19: Você chegou a ir morar no Rio, quando colaborava com eles? Ou enviava o material pelo correio? 

LUSCAR: Morei 15 anos no Rio e fui muito feliz lá. Só voltei a Sampa por motivos profissionais.Sobre a minha entrada no Pasquim eu já falei. 

Durou quantas edições? E, por quê saiu de circulação?
Ah, perdão... você já respondeu anteriormente: As vendas caíram...  

LUSCAR:O Pasquim só fazia sentido durante a ditadura militar. Com a abertura para a sociedade civil, ele deixou de ter importância. A grande imprensa passou a dizer as coisas mais abertamente, o que tirou o charme da imprensa alternativa, e o Pasquim, como “líder de audiência”, foi o primeiro a ser afetado.  A editora de livros bem poderia ter continuado mas, segundo o Jaguar, a editora CODECRI não seguiu adiante porque os lucros foram para a Escócia. 


A Turma do Pasquim

Tony 21: Havia harmonia entre os membros do Pasquim, ou os porraloucas viviam se degladiando? 
Todo muito brigava muito mas no fim acabava se entendendo.

LUSCAR: O pessoal de esquerda, que tem egos muito fortes, sempre brigou muito entre si, ao contrário da direita que sempre foi unida e coesa. A ideologia de direita sempre foi mais bem delineada. 


Tony 22: Você também colaborou com a Mad, segundo meus espiões quase secretos. Por quanto tempo? E, como conheceu o nosso velho amigo Ota. 

LUSCAR: Ele apareceu lá em casa um dia e me convidou pra entrar na patota do Mad. Grande figura, pois é raro um editor visitar colaboradores. Além da Mad passei também a escrever histórias de terror para a Spektro, com o pseudônimo Basílio de Almeida. 





Tony 23: Pelo visto, ao longo dos anos, os cartunistas, em geral, acabam se dando melhor do que aqueles que fazem histórias em quadrinhos. Ganham maior destaque na mídia e parece que com isso também acabam faturando melhor? Vide os irmãos Caruso e outros... Isto é verdade ou é pura ilusão minha? 

LUSCAR:A colocação de um cartum é, ou era, mais fácil, realmente, sobretudo quando não implica(va) em compromisso direto, como é o caso da HQ. O compromisso da HQ, curiosamente, pelo menos no Brasil, sempre se deu mais do leitor com o personagem, quase nunca com o autor. 


Tony 24: Você alguma vez produziu ou 
tentou produzir uma HQ? 

LUSCAR: Publiquei uma tira diária, durante 2 anos, com o título BLÁ BLÁ, BLÁ no jornal A Gazeta, o que me custou a prisão em 70. Mais tarde, no início dos anos 80, publiquei outra tira, também diária, o DR. BAIXADA, no Jornal do Brasil, que me rendeu um livro lançado pela editora Circo, do saudoso Toninho Mendes. Ah, sim, publiquei duas revistas de cartuns e HQ pela Escala.   



 







Tony 25: Como você conheceu nosso querido japa – e quase irmão - Fausto Kataoka? 

LUSCAR:O Fausto me foi apresentado, no bar do Duarte, pelo Paulo Hamasaki. 

Em pé: Getúlio Delphim,
Paulo Hamasaki e JB Pereira
ABAIXO: Luscar

Tony 26: Você também colaborou com a Noblet?   

LUSCAR: Escrevi alguns contos eróticos para a Hot Girls, mas acho que cheguei meio tarde e os contos não foram editados.O senhor Joseph, com a idade avançada, já estava sem pique tocar a editora.   

Tony 27: Sempre exerceu o “cartunismo”, ou também criou revistas de diversos gêneros? 

LUSCAR: A primeira namorada a gente nunca esquece, não é? O cartum sempre foi a minha forma de ser, pensar e agir. Tudo o que eu faço é cartum. Sou um cartum ao vivo.   


Tony 28: Apesar de ser seu fã de carteirinha há muitos anos, conheci você há pouco tempo. Fomos apresentados pelo Hamasaki, numa sexta feira, regada a cervejas geladas, como era de praxe semanalmente, quando eu e o baixinho, após almoçarmos com o seu Joseph, da Noblet, saíamos procurando um boteco tranqüilo para refestelar a goela. Rsss...

LUSCAR: Eu lembro bem. Foi uma tarde-noite muito bonita.   

Tony 29: Com que outros desenhistas e editores você conviveu ao longo de sua frutífera carreira? 

LUSCAR: Puxa, cara, é tanta gente. Em sua maioria tudo gente boa. É raro fedapês na mossa área. 


Tony 30: Dá pra recordar algum caso engraçado que você viveu ou estava presente? 

LUSCAR: São tão tantas emoções... Ah, sim, tem um lance que lembrei agora, e foi aos 14 anos, numa fase ainda pré-profissionalizante. Uma revista mensal de piadas, cujo título se me escapa agora, promovia uma espécie de concurso. Os caras publicavam uma cena desenhada sem legenda, cabendo ao aspirante ao prêmio bolar o texto. Numa dessas tinha uma cena em que um jovem casal, na sala, estava diante de um senhor de certa idade. Daí lasquei a legenda: “Tudo bem você querer a mão da minha filha. Mas o que há de errado com o resto dela?” Como eu era de menoridade, meu pai teve de ir comigo até o Brás pra receber. Salvo lapso de memória, a editora era a La Selva. O velho embolsou boa parte da grana a título de colaboração familiar e meu deu um troco para ir ao cinema. Fiquei puto, pois tencionava ficar com a grana toda pra pitar meu cigarrinho, beber cuba-libre, comprar uma nova calça jean além de revistas e material de desenho. 

Tony 31: Rsss... esta foi boa... você era talentoso, apesar
de precoce... O saudoso Paulo Hamasaki – um grande profissional e intelectual... vamos falar sobre ele. Vocês eram muitos amigos. Como e quando conheceu o nosso amigo?  

LUSCAR: Eu o conheci aos 16 anos quando fui contratado pelo Maurício de Sousa. Ele era o chefe de arte. O estúdio ficava na sala do apê onde o Maurício morava, na rua Helvetia, SP. Andávamos sempre juntos. Quem não nos conhecia bem podia até pensar mal de nós. Pela ocasião conheci também o Shima, outra grande fera do HQB.    

Tony 32: Com o crescimento da internet as revistas de humor e piadas foram desaparecendo, infelizmente, devido a gama delas que existe gratuitamente na rede. Você também aderiu a tecnologia ou continua fazendo seus trabalhos na raça?   

LUSCAR: A era Gutemberg acabou. Atualmente eu colaboro com uma revista virtual de charges e eventualmente sou convidado para ilustrar livros didáticos. 

Tony 33: Se não acabou, pode estar certo que perigas de sucumbir. Mas, torço pra que isso não aconteça... Ainda segundo meus espias, já há algum tempo você trabalha com jornais de bairro. Com quais deles, mais especificamente? Dá pra citar algum? Você produz cartuns para eles ou escreve matérias?     

LUSCAR: Jornal de bairro é complicado, pois tudo, basicamente, funciona como moeda de troca, na permuta. Dinheiro mesmo é moeda rara. Durante algumas semanas fiz revisão num jornal da Liberdade a troco de cerveja, alguns pedaços de pizza e uns tapas num baseado. Colaborei também, a preço módico, durante 20 anos, fazendo uma charge semanal no Jornal do Cambuci & Aclimação, cuja sede ficava próxima de onde eu morava. Éramos praticamente vizinhos. Depois de duas décadas, fui dispensado pela por e-mail pela secretária. Coisas do mundo moderno. E o semanário passou a se chamar Bom Dia São Paulo. Jornal semanal com título de Bom Dia. Quanta modernidade. 



Tony 34: Cacilda, trabalhar com esses caras não é
fácil não... Qual é sua opinião sobre scans? Os caras pegam suas revistas, escaneiam seus trabalhos e colocam eles à riveria, sem sua autorização, gratuitamente, nas redes. Isto não é pirataria? Uma puta sacanagem das grossas? Um desrespeito aos nossos direitos autorais? 

LUSCAR: É muito difícil controlar isso. Aliás, a internet é incontrolável. 

Tony 35: Não sou a favor do militarismo, bengala brother. Quando estudava cheguei a encarar tropa de choque com paus e pedras na mão em meio a explosões de gás lacrimogênio. Mas tem hora que me revolto com a situação do país. Brigamos tanto e tanta gente se fodeu – perdendo a vida – pra tirarmos os milicas do poder, para termos eleições diretas e liberdade de expressão – antes os órgãos de imprensa eram submetidos à censura prévia em Brasília. O povo só lia e assistia aquilo que eles permitiam. Um absurdo. Entretanto, havia disciplina, respeito. 
A bandidagem temia a polícia – especialmente a ROTA -, não existiam facções como se vê hoje por aí, nem invasões em delegacias, gente acampada nas ruas, nas praças públicas. Enfim, a nação está 
sem diretriz. Virou bagunça. Não acha que estamos precisando de alguém de pulso firme que tome as rédeas e coloque ordem no barraco?    

LUSCAR: Precisamos de alguém, de peito, que tenha um projeto sério para o país. Caso contrário, correremos o risco de se tornar um grande, imenso Haiti. 

A miséria no Haiti

Tony 36: Nunca fui petista e convém frisar que a roubalheira não foi este partido que inventou. Ela sempre existiu desde o nascimento deste país. Mas, infelizmente, foi na gestão petista que as merdas vieram à tona e os escândalos se tornaram cada vez piores: dólares na cueca, mensalão etc. Obviamente, aqueles que meteram a mão no nosso bolso - contribuintes – jamais pensaram no povo. O que fizeram com a Petrobrás é coisa de 
maluco. Eles iludiram o povo. Deram uma merreca pros coitados (R$ 70,00 por mês) enquanto roubavam milhões e enchiam o rabo das empreiteiras com milhares de dólares. Daí me pergunto:  Pra que brigamos tanto no passado? Por que tantas vidas foram ceifadas? Para termos o país na mão desses cretinos? Quando digo, CRETINOS, quero me referir à todos aqueles que roubaram o nosso dinheiro. Espero que a Lava Jato consiga botar todos eles na cadeia. Se é que vai haver cadeia pra tantas corruptos como existe em Brasília. Você que tem plena lucidez política, me diga: O que acha da situação atual do país? Desculpe-me, me empolguei...  
  
LUSCAR: O PT acabou. O Lula, em sua condição de mito, ainda tem uma sobrevida. A tucanagem também chegou ao fim. Para evitarmos que o país caia novamente nas mãos de um aventureiro tipo Collor, repito, precisamos de alguém que apresente um projeto sério.    


Fernando Henrique (Tucano) e Lula (PT)


Tony 37: Do que adiante podermos falar abertamente contra nossos governantes, se nada podemos fazer, aparentemente?   

LUSCAR: Atualmente, nossos governantes não ligam para a baixa popularidade, a não ser em véspera de eleição. E há muita barulheira para pouco efeito. Como dizia Plínio Marcos, a galera grita na arquibancada sem interferir no resultado.    

Tony 38: Pra mim, o Brasil de hoje é como a América dos anos 30: cheia de favelas, miséria, fome e grupos de criminosos que dominavam tudo. Se a América mudou, creio que também vamos mudar. 
Pra mim, o juiz Mouro e a equipe dele é uma espécie de Elliot Ness tupiniquim. S´ó espero que não acabem com eles.   

LUSCAR: É preciso também que se faça uma Reforma Política séria e diminuir drasticamente o número de partidos. Seis eu acho um número suficiente. Dos 35 partidos existentes, a maioria é mutreteira. E a Lava Jato, como diria aquele ministro, o Magri, é imexível.   

Tony 39: "Imexível", é ótimo... Rsss... Mas, sem mais delongas,  voltemos o foco para nossas questões profissionais, Luscar... atualmente, você está envolvido em algum importante projeto profissional? Pretende lançar algum personagem ou produto editorial? 

LUSCAR: Pretendo editar livros e, se levar jeito, pintar alguns quadros. 

Tony 40: Você tem ideia de quantos cartuns já produziu e pra quantas editoras e jornais já colaborou?   

LUSCAR: Não tenho a menor ideia. 

Tony 41: Em que dia, mês, ano, cidade, bairro, você nasceu? 

LUSCAR: Nasci em Salto, interior de São Paulo, mas fui criado na Casa Verde. Sou de abril de 48, ano do elefante, segundo os bicheiros.

Salto
Casa Verde, bairro da zona norte de São Paulo

Tony 42: Também já morei em Green House City. Rsss...
Aliás, muita gente boa surgiu por lá, inclusive, a turma
do Chiclete com Banana... É evidente que Luscar é um “nome de guerra”. Qual é Seu verdadeiro nome? 

LUSCAR: Luiz Carlos, em homenagem ao Prestes. 
  
Tony 43: Em homenagem a Luiz Carlos Prestes? Isto eu jamais poderia imaginar... Rsss... Alguma frustração profissional?   

LUSCAR: Não ter editado um periódico, como fizeram as gerações anteriores a minha. 

Tony 44: Um sonho que gostaria de ver realizado?   

LUSCAR: Um Museu de Artes Gráficas. 

Tony 45: A ideia é boa... Deus e religiões... qual é sua opinião sobre esses dois itens polêmicos?   

LUSCAR: Sou agnóstico. 

Tony 46: Como você se autodefine? 

LUSCAR: Francamente nunca parei pra pensar nisso... 
  
Tony 47: Havia algum artista na família, que acabou influenciando você a enveredar para o ramo editorial, que é típico de judeus?   

LUSCAR: Não. O único marginal, no sentido lato da palavra, na família, sou eu. 

Tony 48: Toda família tem que ter um desregrado, um
maluco (no bom sentido)... O papo foi divino... poderíamos ficar aqui durante horas jogando conversa fora. Mas, infelizmente, estamos chegando ao fim... deseja deixar algum e-mail, fone, endereço de site, blog ou Face, para contato? A casa é sua...   

LUSCAR: É só me pescar pelo Facebook, onde eu transito eventualmente, Tony... 

Tony 49: Falou e disse, grande guerreiro e querido bengala brother... Grato, por não ter fugido de nenhuma questão e saiba que foi adorável conversar com você, uma pessoa lúcida, culta e objetiva. Valeu, diretor. Sucessão e até a próxima! Fuiiiii!   

LUSCAR: Valeu.  









Por Tony Fernandes\PégasusStudios – 
Uma Divisão de Arte e Criação da Pégasus   Publicações Ltda – S. Paulo – SP - Brasil Todos os Direitos Reservados. 

CONTATO: tonypegasus@hotmail.com